terça-feira, 4 de junho de 2019

Roupas no varal


Eu amo estender roupas no varal. Gosto excêntrico, né? Amo a ponto de ficar brava quando alguém resolve fazer uma gentileza ao passar pela máquina de lavar no momento exato em que ela faz o barulhinho, apontando que terminou o "serviço", e toma a iniciativa de pendurá-las pra mim. Amo a ponto de inúmeras vezes acompanhar a centrifugação ao lado da máquina para não deixar ninguém tirar de mim esse prazer. Como diz o velho ditado: "cada louco com a sua mania", não é mesmo? 

Estender roupas pra mim é um ritual, gosto de esticá-las bem certinho, bonitinhas, todas bem retinhas! Ai que felicidade um varal organizado! Gosto mais ainda quando o sol está forte, imponente, voltado diretamente para as roupas úmidas. Quando venta então e elas começam a dançar, ahhhh! O prazer se multiplica! Quando posso fico tempos observando o meu varal. O varal me ajuda a pensar, analisar a vida. Detestei as vezes que morei em apartamentos com as áreas de serviço minúsculas que mal batiam sol. Não adianta, quem nasce pra sol e quintal nunca se acostuma a viver em "caixinhas". Quer dizer, acostumar até se acostuma, mas nunca será o objeto de desejo da alma! 

Eu acho que as roupas no varal me remetem a pensar no efeito do tempo nas nossas vidas, sei lá! Quando o sol está bom elas secam rapidinho, mas em dias de chuva consecutivos é um "Deus nos acuda", não é mesmo? Na emergência até o lado de trás da geladeira entra na dança pra ajudar a secar mais rápido... quantas e quantas vezes na vida a gente também não se utiliza de recursos para acelerar o tempo, acelerar uma solução de um problema, forçar a barra de uma pessoa que não te responde numa rede social e tantas e tantas situações adversas... mas olha, roupa que não seca direito tem cheiro ruim, vale a pena forçar a secagem? Acelerar o tempo das coisas também cheira mal! É o famoso "meter os pés pelas mãos". Tudo tem um tempo certo, acho que é por isso que eu gosto de olhar meu varal e ver que as roupas estão lá bonitinhas a caminho de um ótimo resultado do tempo, sem interferências externas. Deixe, deixe! Deixe que elas secam!

As roupas que custam a secar tem muito a ensinar, a falha no planejamento (por que não lavou mais cedo?), a necessidade de paciência (calma, já já seca!), a abertura para novas possibilidades (esquece a roupa molhada, espia no guarda-roupa quantas oportunidades?) e a entrega (ok, você venceu roupa molhada querida, seque aí à vontade, no seu tempo), viu? O varal é uma completa terapia!  

A minha maior recompensa é a hora da conclusão do processo: tirar do varal as roupas secas e cheirosas, ajeitá-las carinhosamente e guardá-las em suas moradias. Sensação de dever cumprido, sensação de compreender como a vida funciona, sensação boa de entender que não adianta forçar nada nessa vida porque o que tem que ser, secagem rápida ou dias seguidos no varal, vão sempre fazer parte do nosso ciclo de crescimento, de aprendizagem... e isso o lado de trás da geladeira nunca poderá fazer por nós. 

A secagem forçada é só um paliativo.
Secar de verdade é o que faz crescer.
E viva o vento, o sol e o tempo!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A iminência da perda


Ontem passei um apuro danado, o Pixe, o gato mais velho aqui de casa, ficou desaparecido por 24 horas e quase nos matou do coração. Foi um dia aflitivo, doloroso e muito fantasioso. O fato de não saber ao certo o que havia acontecido com ele me fez viver diversos filmes de terror em forma de imaginação. Imaginei ele machucado sem conseguir voltar para a casa, perdido, com fome e sede... mas a imaginação mais dolorida, de longe, foi a morte. Pensar na morte me trouxe lembranças inúmeras do jeitinho dele, das manias e da história dele com a gente. 

O Pixe surgiu na nossa vida de supetão, de um jeito totalmente impensado. Nunca tínhamos tido gato na vida e eu nem sabia como cuidava desse "trem", mas quis atender um pedido da Bia, minha filha, que já me azucrinava há um tempo querendo viver a experiência de ter um gato. Na véspera do aniversário dela, de 16 anos, soube que tinha um gatinho preto para adoção na clínica de uma amiga, fui lá ver e me apaixonei pelo piquititico... era o Pixe! No outro dia coloquei ele dentro de uma caixa de sapato, embrulhei, com cuidado, e levei pra Bia. Foi a cena mais linda de ver, a emoção que ela sentiu na hora que viu o gatinho (ela nem imaginava o que tinha na caixa!), acelerou o coração de todo mundo da família! Pronto, o "rei" do pedaço chegou para mandar na mulherada! E literalmente ele manda em nós, há lindos 3 anos e 2 meses. 

A Bia estava atravessando um tempo difícil nessa época (adolescência sabe como é, né?) e o Pixe a acalmou de um jeito incrível. Gatos, pra mim, são anjos, seres iluminados, muito mais evoluídos que nós. Mudou a energia da casa, aumentou amor dentro da gente. Um presente pra Bia e de tabela pra família inteira. Amamos tanto ter o Pixe que um ano e pouco depois adotamos também o Xexéu, outro fofo. Ontem o que mais me partia o coração era ver a tristeza do Xexéu, procurando o "irmão". E eu, no meu mundo da imaginação sombrio do momento, já pensava: "Meu Deus, vou ter que arrumar outro gatinho, se não o Xexéu vai morrer de tanta tristeza". 

Felizmente dez da noite veio o miado forte do Pixe na porta da cozinha e a alegria voltou a reinar na casa das meninas apaixonadas. Desconfio que não foi um rolê estendido, ele é castrado, nunca havia feito isso, desconfio de sequestro... mas isso deixa pra lá, importante é que ele está com a gente de novo.

Hoje olhando os dois irmãozinhos dormindo juntos fui invadida por um sentimento gostoso de recuperar o perdido, de encontrar, de reencontrar, de alívio por nenhuma imaginação sombria ter se realizado. Essa sensação me trouxe a viagem para escrever esse post sobre a iminência da perda nas nossas vidas. A perda é real, tudo pode acontecer, a qualquer momento e esse TUDO não está, absolutamente, no nosso controle. Que coisa, né? E mais assombroso é que, mesmo sabendo que essa perda pode acontecer a qualquer momento, vamos vivendo, do mesmo jeitinho, como se fosse ser sempre assim, aí não somos totalmente sinceros, não gastamos todo o amor que temos pra dar, ridicamos sorrisos e abraços, economizamos visitas, ligações, viagens, elogios... vamos vivendo automaticamente naquela "certeza cega" de que amanhã tudo e todos estarão aqui e a vida será da mesma forma que hoje, sem tirar e nem por. Que ilusão!

Ah Pixe! Até nisso você me ajudou... refletir sobre essa perda iminente e no risco que é viver às cegas. O ensaio da perda mexeu um tanto aqui dentro. Gratidão lindão nosso! Obrigada por voltar pra gente e por nos deixar te amar tanto! Tanto e tanto e tanto, agora muito mais... até que um dia a perda chegue de verdade e, quando chegar, eu vou, com certeza, me lembrar que a vida me deu mais uma chance de te amar um pouco (ou um tanto) a mais. 


sábado, 8 de dezembro de 2018

As vidas que ficaram para trás


Nas minhas veias corre o sangue de uma nômade. Confesso. Devo ter deixado muitos ciganos morrendo de inveja nos últimos 10 anos, com tantas mudanças de cidade e casa! Uma vez fiz um mapa astral e a astróloga cantou a pedra perfeita: "sua dificuldade é ficar", exatamente, ficar por muito tempo me envelhece, me corrói, tira a minha natureza de ser livre, curiosa e desbravadora. Mas ir... é muito fácil, junto tudo e vou, sem nem pensar duas vezes. Faz tempo que reflito sobre isso, até achei que seria um bom tema para um trabalho autoral independente: as muitas vidas que temos dentro de uma só, pois em cada cidade, em cada casa, você constrói uma vida diferente, até a disposição dos móveis nos modificam. 

Recentemente passei uma semana em Mato Grosso, estado querido que me abrigou pelos 10 anos mais intensos da minha vida. Intensos de trabalho, intensos de convívio com pessoas incríveis. Intensos de crescimento pessoal. Incrivelmente lá morei, em uma década, em "apenas" três casas. Depois que voltei pro sudeste morei em três cidades, no espaço também de 10 anos, e em seeeeete casas. Pergunta se meus móveis ainda estão inteiros? Capengando, igual a cigana mesmo, mas inteiros. 

Depois que me mudei de Mato Grosso voltei muitas vezes pois tive a sorte de conseguir alguns trabalhos lindos por lá, que pude fazer à distância, exceto o trabalho de pesquisa, que sempre foi feito in loco. Nessas minhas idas, por mais que fosse maravilhoso rever pessoas e  lugares, nunca mais me senti de lá. E é tão estranho, muitas vezes guardamos na memória um lugar que vivemos e mantemos as pessoas e locais intactos, como se tudo ficasse congelado depois que vamos embora. E voltar é um choque, é sempre um choque. Aquela padaria que você amava os bolinhos recheados foi demolida e construíram um prédio no lugar, os amigos da turma inseparável de antes não andam mais juntos, o fulano enriqueceu e ficou "se achando" e a fulana mais querida de todas foi embora também, alguns morreram, o lindo casal que todos amavam ver juntos, se separou. 
Aquele não é mais o seu lugar. O seu lugar ficou para trás, em outra vida.

Acumulamos vidas dentro de uma só, vidas passadas que, de certa forma, se perdem no presente e permanecem inalteradas apenas em dois locais encantados: nas lembranças e no encontro com os amigos, que nos dão acesso a viver um pedacinho do que passou. Como é bom relembrar coisas do passado com amigos que viveram as histórias com a gente, não é mesmo? Ai que delícia que é! Quem a gente amou e viveu coisas tão boas conosco são um convite a voltar, mas isso também tem prazo de validade, esses amigos também estão vivendo outra vida, com outras pessoas e em outros lugares. 

As pessoas mudam, a vida de todo mundo muda, o mundo material se recicla, se reinventa, acaba. Nós mudamos, mudamos muito e quantas e quantas vezes temos saudades de nós mesmos, daquelas outras vidas. Eu sinto uma saudade danada da Ana estudante, meio maluquetes, da Ana foca, dando furo para mais de metro nas reportagens (furo de erros, não de furo de reportagem... hahahaha), da Ana ousada que viajou para fora do país com a cara e a coragem, da Ana corajosa que foi morar com duas filhas lááááá onde o Judas perdeu as botas, sozinha. Nenhuma dessas "Anas" existe mais e não adianta eu voltar para nenhum dos lugares dessas outras vidas pois nunca irei reencontrá-las, a vida nunca mais será a mesma. Você pode até voltar, mas será outro tempo e outra realidade.

Louco isso, né? Tem vidas que não deixam saudade, vidas limitadas, de solidão, de angústia, fases ruins que passamos, que damos graças a Deus por terem ficado para trás, mas tem umas fases boas que... nossa! Eu daria todas as vidas em troca de vivê-las novamente. Talvez o que dê mais saudade seja a jovialidade que fomos perdendo com o tempo, as experiências novas, o arriscar uma conversa com um desconhecido que lá na frente se tornou melhor amigo, a coragem de tentar um novo emprego que te trouxe muitos ganhos profissionais... sentimentos que os anos roubam de nós, quando nos descuidamos. 

Talvez esse "insight"  não seja só uma viagem da minha cabeça e sirva para algo valioso, como um incentivo para construir agora uma vida que deixe saudade lá na frente. Cabe a nós isso, exclusivamente, não? E talvez esteja aí a beleza de parar e olhar, longamente, para todas as vidas que deixamos para trás. Todas elas nos mostram que tudo que foi feito e vivido com amor valeu à pena, porque no fim das contas, só o amor é e continua eterno. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Desapegos


Em dezembro do ano passado fiz uma faxina gigantesca na minha casa, daquelas com total desapego e que nos deixam leves por dentro, sabe? Mexi em tanta coisa, guarda-roupa, armários de cozinha,  aquelas caixas com bilhetinhos e milhões de cartas da adolescência e armários do escritório, que ainda guardavam (pasmem!) provas da faculdade de jornalismo. Detalhe: esse ano faço 20 anos de formada!!! Apesar de tudo ter algum significado não tinham mais utilidade e ocupavam um espaço reservado para o novo que haveria de chegar. O que ainda tinha serventia e não desejo foi direcionado para outras missões, longe de mim, o restante foi quase tudo para o lixo. Uns 10 sacos de 100 litros. Mega desapego. 

Hoje lembrei dessa faxina e me assustei um pouco. Nossa, parece que foi ontem, e já faz um ano! E com isso comecei a lembrar de todos os desejos de bem para 2018, sinto ainda o frescor da esperança de que tudo entrasse nos eixos e desse certo no novo ano. Foi ontem! E quase nada do que esperei ou desejei aconteceu. 2018 foi muito ruim e ficou marcado pra mim como um ano de perdas significativas e muito dolorosas. Perdi um grande amor e com ele boa parte da auto estima, perdi duas casas e com elas os desejos e planejamentos que ficaram para trás, o aconchego preparado e perdido, o cantinho de paz feito com tanto carinho, desfeito. Mudanças. Sonhos interrompidos. Quantos recomeços! 

Nesse dezembro não pretendo faxinar. Não posso abrir mão de mais nada, já estou vazia o bastante. Será que eu acionei sem querer, no desapego do ano passado, o botão "delete all"? Acontece. A vida às vezes prefere desmoronar a casa inteira e começar tudo da base do que perder tempo com reformas. Eu sei que a gente precisa ter sonhos, metas, ter para onde ir,  saber onde se quer chegar, mas quando perdemos muitos sonhos parece que falta coragem para se arriscar de novo no mundo da imaginação. 

Essa não era pra ser uma postagem negativa e pensando bem, não é. É uma postagem da vida real. Um ano a gente ganha, ganha bastante, no outro a gente perde ou perde muito e a vida é assim, nunca previsível, mas sempre bonita do jeito que tem que ser. Perdas são dolorosas mas tem a missão de nos reconstruir. Não tenho a menor ideia do que virá, não pretendo planejar por enquanto, pretendo confiar que, embora dolorido, o desapego é muito necessário na vida pois em lugares muito cheios a boa sorte costuma não entrar. Então está tudo certo, a porta está aberta e o espaço bem vazio. 

Seja o que Deus quiser. 
Sempre é.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apagões da alma

Estou num ano difícil, tanto que não fiz nenhum post em 2015. Conhecendo a mim mesma sei que não escrever é um indício forte de que as coisas estão um pouco escuras por dentro. É difícil a gente falar assim, publicamente, da própria escuridão, não é? É sim, mas eu falo da minha em nome de muitas outras pessoas que também estão tendo um ano difícil. Eu falo dos "apagões da alma" que inevitavelmente chegam, uma hora ou outra, com menor ou maior intensidade, para os simples mortais que estão tão suscetíveis aos ciclos inconstantes da vida. Quem está encarnado já passou ou ainda vai passar por isso em algum momento. Fato!

Em estado latente de alma apagada a gente não vê cores, não sente vontade de estar com as pessoas, não quer falar, não quer ouvir. E às vezes não existe motivo nenhum para estar assim, só cansaço! Passa a ser atraente o refúgio do lar, as horas de sono, que ficam incrivelmente encantadoras. O isolamento passa a ser o programa mais incrível de uma alma apagada.

Se ninguém acende um fósforo você vai ficando ali, escurecendo lentamente, sem perceber. Quando notamos a vida perdeu a graça e a gente se sente um derrotado, uma pessoa sem valor. É triste isso, né? E é mais triste ainda que poucas pessoas percebem, porque está todo mundo cuidando da própria vida e travando batalhas pessoais. Não é sempre que nos dispomos a olhar pra fora da nossa caixinha. E por não perceber, às vezes a pessoa com a alma apagada passa por antipática.
Muitas vezes este ano eu devo ter sido julgada como tal.

Sabe, viver é às vezes mesmo muito cansativo. E essa luta determinada pela "sociedade" pra ser feliz, para ter tudo que a gente quer, essa batalha pra alcançar os sonhos, pra conseguir se livrar dos problemas, pra conquistar os outros, pra andar com as contas em dia, pra aguentar os malas de plantão, pra parecer sempre satisfeita... CANSA! Leva à estagnação.

E viver BEM pode ser tão mais simples... acredito que seja só se contentar. Se contentar sem acomodar. O contentamento acende a luz da alma apagada. O contentamento traz as cores, os sons e os sabores todos de volta. O contentamento é o que mais falta nesse mundo tão tecnológico, moderno, com os relacionamentos aparentemente facilitados pelas redes sociais. Pouca gente se contenta com o dia de hoje somente, com a refeição do dia, com os compromissos do agora, com um sorriso de bom dia, com uma noite de amor... o querer mais e mais e mais que vai apagando aos pouquinhos a gente. A ânsia pelo futuro, a insegurança pelo o que virá... e como virá e como será. Tanta ansiedade, tão pouca paz. Tanta gente perdida, se perdendo, entrando na escuridão sem perceber!

Comecei a ver a vida de pessoas próximas a mim, não todas fisicamente próximas, mas pessoas do meu coração. Quanta coisa triste acontecendo para alguns de meus caros também. Queria saber porque o mundo está assim!

É bom que você saiba, você que me achou em algum momento deste ano quieta, ausente, omissa, antipática... saiba do meu apagão e do meu esforço para encontrar de novo a porta de saída deste tempo tão sem graça, tão sem brilho, tão escuro! Tão triste.  Às vezes a alma está tão vazia que o melhor que podemos dar é o silêncio.

E escrevendo este post eu penso: como a vida é transitória! Como tudo é movimento! Porque quando tá tudo bem não fica tudo bem e pronto? Quando está tudo feliz ninguém pára pra pensar que o que é bom também passa. E passa... mas passa também a escuridão! Quando sobrevivemos à tristeza parece que a luz volta mais abundante, saímos do escuro mais maduros e fortalecidos. Nos sentindo mais gente. Não é?

Graças a Deus que é assim! Graças a Deus que passa.

O meu post de hoje vai pra todo mundo que está sofrendo em silêncio, no escuro.
Principalmente para aquele que não quer que ninguém saiba de sua dor.
E vai também como um pedido de desculpas, por dias omissos, por comportamentos frios.
Às vezes... por não amar o suficiente.








segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O tempo das coisas...



Eu tenho uma "secretária do lar" completamente fofa: Lurdes, que cuida de mim, das meninas e da casa tão bem, que até parece uma enviada da minha mãe pra tomar conta da gente! A Lurdes tem uma mão incrível para plantas e ela também é a responsável por cuidar disso aqui em casa. Eu até amo essas coisas, mas não tenho tanta habilidade (ou nenhuma... rsrsrs...) como ela.

Esse ano a Lurdes plantou várias roseiras no  quintal e no canteiro que fica na entrada de casa, mas só vingou uma, que cresceu com uma dificuldade imensa. Volta e meia a Lurdes lamentava pra mim, com o maior pesar, dizendo que achava que a única que tinha sobrado não ia vingar também. Que dó! Os cavalos que passavam pelo canteiro à noite comiam as folhas que nasciam... além da seca que tivemos no segundo semestre, que missão difícil para a roseira sobreviver, né? E assim foi indo aos trancos e barrancos.

E nós, na correria do dia a dia, nem percebemos que ela se fortaleceu com a chuva... e eu, num domingo, desavisada, sentei para arejar a cuca na porta de casa, quando meus olhos foram puxados pra roseira, certamente ela me chamou pra ver o que estava acontecendo: vários botões perfeitinhos que logo logo seriam lindas rosas. Fiquei tão feliz, mais pela Lurdes do que por mim e a roseira... rsrs...

E assim, uns dias depois, elas surgiram, LINDAS, IMPONENTES, VIVAS, VERMELHAS!!! Vencedoras as danadinhas! Deram um "tchan" incrível na entrada da casa. Outro dia até fotografei as belezuras pra registrar essa história linda delas. E quando estava fotografando comecei a pensar no tempo das coisas e em como somos intolerantes com isso, né? Eu me confesso uma intolerante nata, mas sei que
tenho aprendido bem com a vida, viu?

Tenho aprendido que a  ansiedade da gente não muda o tempo da vida, que nada faz o tempo certo acontecer antes ou depois do que queremos. O tempo é muito sábio. A roseira teve muitas dificuldades pra crescer, mas ela precisou do tempo dela para desabrochar... e desabrochou, lindamente!

Então é isso, torço aqui para que as minhas e as suas rosas desabrochem em 2015 exuberantes, fortes, coloridas... e no tempo certo! E que a gente possa ter tolerância e fé na nossa caminhada para termos tudo de bom que a gente merece! Beijos!




domingo, 7 de dezembro de 2014

Bituca em Pedralva: a história do sonho


Eu tenho uma memória de ouro, lembro de coisas da minha infância e de vários momentos da vida que nem sei como cabem na minha caixola! São lembranças olfativas, visuais e, principalmente musicais. Então lembro do Milton Nascimento em quase tudo na trilha sonora da minha vida. Quando era criança minha irmã mais velha, a Cláudia, já adolescente, ouvia em fitas k7 os sucessos da época, era por volta de 1981, no auge do disco "Caçador de mim". Como eu achava lindo tudo que a Cláudia fazia e ouvia, ficava de longe ouvindo e curtindo o que ela curtia... e assim fui ficando fã de longe. A Cláudia tinha amigos sensacionais, que volta e meia vinham em churrasquinhos no quintal da nossa casa, e sempre saía aquela roda de violão, e o Milton Nascimento ali, sempre junto. Nossa, como eles gostavam dele! Era Milton Nascimento por todos os lados, no Bar do Iramar, no Piriri, e eu  sempre, um toco de gente, querendo fazer parte, sem poder, dessa turma de gente grande que cantava com a alma!

Eu cresci com a sensação de que só Pedralva amava desse jeito o Milton Nascimento... rsrs... que ilusão a minha! Ele era tão íntimo nosso que parecia um pedralvense, dos mais queridos! Na adolescência formei minha própria turma, e, que novidade! O Milton também fazia parte dela! Mas aí já não era mais Milton, a intimidade cresceu tando que, amigo que é amigo, a gente chama pelo apelido, né? Então nos referíamos a ele, intimamente, como Bituca. E me lembro com tanta emoção da primeira vez que li "Os sonhos não envelhecem", do Márcio Borges, que conta o início do Clube da Esquina, numa narração deliciosa de tudo que eles viveram. Em cada página do livro eu pensava: "não é possível, o Bituca é muito da gente!". E esse sentimento não era só meu, eu tenho certeza que não! Era de todos os amigos da Cláudia, que na fase adulta ficaram meus amigos também, e dos meus amigos da adolescência, que são amigos da vida inteira, numa irmandade pedralvense apaixonada pelo tão íntimo, e ao mesmo tempo, tão distante Bituca!

Perdi a conta do número de vezes que rodamos atrás do nosso Bituca nesse sul de Minas, em São Paulo, no Rio, no Brasil, no mundo! Se o Bituca tocasse na China e tivesse um pedralvense lá, duvido se a nossa cidade não era representada! Porque crescemos com ele assim: totalmente nosso! Hoje eu tenho a consciência plena de que esse sentimento não é só nosso, essa "posse" de amor pelo Milton Nascimento é de Minas, do Brasil e do mundo! Mas que eu achava que essa "fãnzisse" era coisa só da nossa gente, eu achava! rsrsrs...

E Pedralva deu um jeitinho de se fazer notada pelo Bituca, então surgiu a febre do grito "Es-pe-ta-cu-laaaaar!", que começou com o Jú da Daisy num show cover dos Beatles, passou pro Lô Borges, pro Bituca, pra tudo aquilo que é realmente espetacular e virou febre em Pedralva! Esse grito é a expressão de imensa admiração por algo impossível de se expressar, de tão grande que é... uma redundância, mas só grito espetacular pode expressar o amor que a gente sente pela música, porque é um grito que vem lá da alma. E assim fomos notados! Na verdade o Bituca nos reconheceu, porque essa energia pedralvense já devia existir dentro dele de alguma forma. E assim ele soube que existia uma cidade pequeniniiiiiiiiiiiiiiiiiiinha, da mesma Minas Gerais dele, com gente cheia de alma, cheia de amor pelo seu trabalho. 

Mas não bastava a gente viver indo atras dele, né? "Ai que sonho de ter o Bituca aqui na nossa casa!". "Mas que coisa absurda... um ovo de cidade, imagina se ele vem!"... "mas "E SE" ele sentir a gente como o sentimos? Se for por amor, será que ele vem?" ... e essas conversas a gente tinha sempre! Um sonho sendo gerado, alimentado a cada música dele nas rodinhas de violão, em cada acampamento na Pedra Branca, em cada vez que a gente acreditava no improvável, no impossível. 

E esse sonho foi gerado com tanto carinho que caiu aqui, no nosso abraço, no nosso anseio... na nossa Pedralva! Bituca ouviu nosso grito e entendeu o nosso sonho. Topou vir em Pedralva por um valor muito abaixo do que usualmente cobra para se apresentar. Pagou pra ver de perto quem é essa gente! 

Através do Beto, amigo do Bituca de Três Pontas, veio a notícia:

- Bituca quer tocar em Pedralva!

Quase morremos do coração! Frio na barriga intenso. E agora? E agora "vamo que vamo"! Reunimos um grupo de 12 pessoas "peitudas" pra encarar o desafio de organizar esse "trem", um evento de grande porte que nunca aconteceu na nossa cidade. E em dois meses tivemos que correr atras de patrocinadores, coisa dificílima de conseguir com tão pouco tempo. E os dias, antes da assinatura do contato, eram assim: "Não vai dar", "Vai", "Não vai", "Vai"... mesmo ele cobrando um valor irrisório tinham os custos do show, que não eram nada legais! E foi aí, minha gente, que aconteceu a coisa mais linda que eu já vi na minha vida: chegaram os amigos espetaculares: "Vai dar sim!", mil daqui, quinhentos dali e assim... com o esforço de cada um, conseguimos a grana pra fechar o contrato!! Tivemos poucos patrocinadores, gente que acreditou de verdade na gente, e que somos muito agradecidos (Curso G9 / Scapex/ Amplera / Bloco do Pink Floyd / Pedrock/ Turma do Bigode/ FAI e alguns apoiadores: Bar dos 2, Colégio RH, Cachaça da Pedra, Paulo Faria, Pró-Som, Casa Magalhães, Ellen Calçados e Confecções, Arimatéia Lanches, Magazine Santa Edwirges e Boutique Frikote), mas quem está mesmo bancando o show são os Amigos Espetaculares, essa gente linda que tirou dinheiro do próprio bolso pra ver o sonho acontecer. Lindo demais isso!

E o sonho vai acontecer sábado que vem, 13/12/2014. Esse dia, além de ficar marcado na nossa história e no nosso coração, vai ser a comprovação do quanto a energia do amor é poderosa. 

A nossa casa te espera, Bituca! Com todo o amor do mundo!