sábado, 9 de maio de 2020

Despedidas roubadas


Eu gosto de velório. Que fúnebre começar um texto assim, né? Mas eu explico. Penso que só quem já perdeu um ente muito querido para saber a importância de um abraço, de um sorriso, uma palavra consoladora, uma presença que seja, no momento da despedida de alguém amado, tempo esse que  carrega tanta dor. Cada abraço e cada manifestação de apoio e afeto é como se a nossa dor fosse sendo diluída aos pouquinhos, não é assim? Entendi isso cedo, com a morte da minha mãe, quando eu tinha 12 anos. Antes eu achava super estranho o meu pai ir a todos os velórios e sepultamentos que aconteciam na cidade. Depois entendi e passei a acompanhá-lo, não em todos, mas na maioria, e ao abraçar alguém em sofrimento sempre penso "me dá um pouquinho da sua dor, pode dar!". 

Desde o começo da pandemia a coisa que mais me chamou a atenção (e dor, só de pensar!) foi o fato das famílias vitimadas pelo corona vírus terem as despedidas roubadas quando perdem seus amados. Meu Deus! Isso não entra na minha cabeça! Imagina, você não poder dar um último beijo, não poder passar horas olhando para aquele rosto já sem vida, mas que traz tantas histórias que vão deixar tantas saudades. Que dor mais sem limite! Sem abraços, sem consolo, sem o tempo certo para digerir a perda. Que coisa triste e nunca imaginada! 

Hoje o Brasil completou 10 mil perdas. "Numerozão", né? Vamos escutando esse aumento assustador de números dia a dia, números computados, somados, acumulados e tristemente ignorados por muitos. Muuuuuuuuuitos. Cada número que compõe essa soma é uma pessoa que tinha uma história, tinha família, tinha assuntos inacabados e vai embora desse mundo deixando dor em muita gente, vai sem se despedir. Imagina o buraco que isso fica na vida de quem fica? Que luto mais tortuoso será!

Fico aqui pensando... nós acompanhamos essa tristeza pelos telejornais, sentadinhos no sofá, no nosso conforto, com nossa família querida e tudo isso fica tããããão distante de nós, parece um filme de terror, de ficção, estarrecedor, mas o noticiário acaba, a gente desliga a TV, volta pro nosso cotidiano, mesmo em quarentena, com saúde, com vida e pronto, os números ficaram para trás... amanhã é outro capítulo do filme, com mais números, mais tristeza e "parece" que a tragédia nunca irá nos atingir, nunca baterá na nossa porta. 

O que eu tenho visto e ouvido dos amigos aqui do interior de Minas é que a vida segue praticamente normal pelas ruas. Todo mundo na mesma vibe: "ah! esse "trem" nunca chega aqui não, sô!", mineiro sempre sossegado e confiante. Faço votos para que não chegue mesmo, por isso estou fazendo o máximo pra ficar bem trancadinha em casa, porque se vier... vai ser muito triste não poder abraçar um amigo querido que passe por uma tragédia dessa! Não existe ir num velório sem abraçar e não existe velório sem um corpo para velar. O que fica é só morte, um enterro solitário e um vazio que vai ser muito mais difícil de ser preenchido.

Eu sempre gosto de terminar meus textos com algo positivo,  alguma lição boa que podemos tirar de alguma dor... mas hoje não estou encontrando saída para isso. Se não conseguimos nos sensibilizar pela dor do outro, pela dor dessas 10 mil famílias, estamos doentes por dentro. A doença da insensibilidade é devastadora e ela pode sim, fazer com que sejamos os próximos da fila das despedidas roubadas.

Triste.

sábado, 28 de março de 2020

Será que eu vou morrer?


A pergunta que não quer calar na nossa mente inquieta dos últimos dias: "Será que eu vou morrer?",  e a resposta ligeira, "na ponta da língua" do pensamento é: "Não!!!!! Imagina!". Somos assim, não é? Nunca achamos que seremos acometidos pela doença, pelas tragédias e pelas coisas ruins que acontecem com "os outros", com as pessoas que nem conhecemos, como os italianos, os americanos, chineses e espanhóis que estão semanas na nossa frente, nessa triste guerra contra a pandemia. Temos a ilusão da imunidade, "Ah, comigo e com a minha família não vai acontecer", e seguimos, amedrontados e assustados com esse imprevisto, mas certos de que sairemos ilesos. 

Hoje fiquei catando matinhos no quintal, ao redor da minha varanda, a manhã inteira e me veio esse pensamento enquanto eu me perdia no meio da natureza e do solzinho gostoso na minha pele. Pensei na impermanência da vida, como tudo muda de uma hora pra outra, e o quanto a vida é frágil, um sopro... e o quanto teimamos em não olhar para isso com cuidado. Vivemos como se o tempo  fosse ilimitado, como se esse "grande senhor dos dias" estivesse à nossa completa mercê, então deixamos milhares de assuntos para resolver depois, depois que sobrar dinheiro, depois que eu tomar coragem, depois que eu emagrecer, depois que terminar o verão, depois da quaresma, depois de me aposentar, depois, depois, depois... a ilusão do depois que nos dá tantas rasteiras pela vida afora.

No começo desse mês perdi um gatinho que eu amava muito, o Xexéu, um gato fofo, carinhoso, dengoso e muito companheirinho meu, de trabalho, de sofá, de cochilos, de conversas... ele era um gatinho que respondia quando eu falava com ele, era um gozo e uma fofura master! O Xexéu ficou doentinho e se foi em cinco dias, alastrando meu coração. Tudo muito fugaz e inesperado. Lembrei hoje na capina da manhã que às vezes eu olhava para os meus gatos e pensava: "um dia eles vão morrer... como será que vai ser? Qual deles vai primeiro?", mas a mente mentirosa logo respondia: "Xi, vai demorar! Nem pensa nisso", e imediatamente eu deixava esse pensamento "bobo" pra lá. Então, não demorou... e a morte veio de uma maneira nunca antes imaginada.

A vida esse ano parece me chamar a atenção para sua impermanência. Tanta coisa já aconteceu de uma hora para outra! Penso que ela quer que eu pense a fundo sobre mudanças, perdas, recomeços e realidade. Sim, eu posso morrer, meus parentes e amigos podem morrer, por que não? Por que sou diferente dos outros que estão passando por isso e não vai acontecer comigo? Aliás, "NÃO VAI ACONTECER COMIGO", é a frase mais pensada e dita, não é mesmo?  É filhotaaaa, você não tem nada de diferente de ninguém, então se aprume. E vamos pensar sim na morte, mas vamos pensar muito mais na vida que queremos ter, nas coisas que precisamos resolver, nos nossos sonhos, que não podem morrer junto com a ameaça da vida se acabar do dia para a noite. 

Eu, por sorte, não tenho medo de morrer, mas tenho medo de perder pessoas. Perda é um assunto complicado pra mim, talvez por ter perdido minha mãe tão nova, esse assunto é sempre algo doloroso e difícil de assimilar, ingerir. Mas é um exercício importante da gente fazer, é um assunto que tem SIM que ser encarado, porque desde que eu me entendo por gente, nunca ouvi dizer que alguém ficou para semente. Talvez não sejamos vítimas do corona vírus, mas de alguma coisa, algum dia, nós vamos morrer, nossos pais, amigos, filhos, amores, todos vão morrer. temos que exercitar essas perdas desde já... como? Amando do jeito certo, sendo gentis uns com os outros, sendo solidários, atenciosos, entendendo melhor as necessidades afetivas das pessoas ao nosso redor. 

Poque quando a perda vier, quando a morte chegar, garanto que vai ser muito menos doloroso quando sabemos que fizemos tudo de bom que poderíamos ter feito pela pessoa que se foi. E se eu morrer, saibam todos que eu vou livre, leve e solta, porque eu sinto lindamente no coração que é só uma mudança de dimensão, é só uma continuidade. Deus é tão pai, tão tudo de bom, que dá pra gente oportunidades inúmeras de acertar, quantas vidas precisar, mesmo que a gente demore pra entender que não somos diferentes de ninguém. 

Quando tivermos esse entendimento, aí sim estaremos libertos para sempre. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Luta individual


Hoje estava refletindo aqui na minha quarentena sobre essa "doideira" que estamos passando com a pandemia do Novo Corona Vírus. Quem imaginou viver um "trem" desse, né? Eu NUNCA... e olha que eu tenho a imaginação beeem fértil, viu? rsrs... Como eu sempre acho que tudo tem um propósito nessa vida, minha nova "diversão" é refletir sobre o que esse vírus está querendo mostrar pra gente. É tanta coisa, tanta reflexão, que preciso ir por partes nesse meu devaneio para não me perder e talvez só um post não seja o suficiente, talvez muitas reflexões exijam amadurecimento, que só virão com o desdobramento dessa pandemia nos próximos meses.

Pensei hoje que cada pessoa está justamente onde precisa estar e com quem precisa estar nesse momento. Eu estou sozinha. Ops, sozinha não, eu e os meus gatinhos, que são excelentes companheirinhos! Muitos estão com a família ou com parte dela, outros com amigos, com namorados, viajando, mas todos isoladinhos em algum ponto desse planeta. Minhas meninas estão cada uma num canto, nos primeiros dias de quarentena lamentei muito por não estarmos as três juntas enfrentando mais uma barra na vida, já enfrentamos tantas, né? E foi tão bom ter elas por perto nos perrengues, mesmo que elas fossem crianças. Hoje tudo mudou, elas são adultas, cada uma cuidando de si e de correr atrás da vida que escolheram e sabe a real? Hoje eu não controlo mais nada na vida delas, nem posso, nem devo, mas que dá saudade do tempo em que eu decidia tudo, isso dá!  

Quando tem que ser a vida junta ou separa, isso é fato. E quando tem que ser  a "coisa" tem força. Se não estão aqui é porque elas também precisam estar onde estão, para o próprio crescimento de cada uma. Eu estou aqui porque eu preciso olhar pra mim, cuidar de quem só cuidou até hoje. Reconhecer isso não é fácil, reconhecer isso é assumir o meu lado controlador, mandão, que quer ter sempre as situações da vida e as pessoas sob total controle. Muito auto-crítica, muito rígida, que se cobra por tudo, até pela escolha e dor do outro, que nem é de minha responsabilidade e competência. Reconhecer isso é olhar pra trás e ver o quanto já passei por cima de mim mesma para atender, acolher, cuidar, ajudar e fazer tudo pelo outro, mesmo que na maioria das vezes eu tenha recebido muito pouco ou nada de volta. Nessa quarentena eu estou em primeiro lugar, estou frente a frente comigo, para reconhecer minhas delícias e amarguras, meus defeitos e qualidades, meus desejos e necessidades. A quarentena quer de mim autoamor, autoacolhimento, autocompreensão. 

É claro que não vai ser um mar de rosas, eu sei. Nem para mim que estou sozinha e nem para quem está perto da família, ou de seja lá com quem for. Assisti um vídeo ontem de uma brasileira que mora na Itália dividindo com os brasileiros o que ela chama de "fases da quarentena", que muda a cada semana. Ela diz que na primeira semana, enquanto é novidade, até que a gente leva numa boa, mas quando vier o tédio, a impaciência, a tristeza pelas mortes aumentando, a irritabilidade com quem está com você... não vai ser fácil pra ninguém. Depoimento de quem está ha dois meses em isolamento.  Estamos há uma semana, nem isso! O que vem pela frente? Intolerância, impaciência, descrença ou fé, confiança, entrega, entendimento? Ou tudo junto, misturado? Talvez hajam brigas, desentendimentos, dentro de casa. Talvez a sua irritação com quem você divide o teto nesse momento fale mais sobre você do que sobre ele ou eles. Talvez fale do que você precisa mudar, fale da sua sombra, fale da escolha que você faz todos os dias ao se relacionar com o mundo. Você está escolhendo corretamente?

São muitos questionamentos, mas certamente os dias que virão serão dias de praticar a tolerância, de acertar relacionamentos doentes, de falar a verdade, de assumir erros, de perdoar... então eu só posso pensar que esse vírus traz a doença, a dor e o medo mas traz também a cura para os nossos sentimentos. 

E sabe? Mesmo que você esteja acompanhado nesse momento pelas pessoas que você mais ama, a luta é individual, em todos os sentidos! Na prevenção do virus, na tolerância e na calma necessárias para passar por esses dias sem enlouquecer. Cada ser está num nível diferente de evolução, de compreensão da vida, de autoconhecimento, por isso a tolerância é importantíssima nessa hora. Talvez os "insights" que você tenha nesses dias não sejam os mesmos "insights" que seu marido e seu filho terão. Talvez você fale e todos vão achar que você está viajando, como podem achar que eu estou viajando com essa postagem, certo? hahaha... 

Mas se a viagem for pro bem, que mal tem?
Desejo a todos dias de aprendizado e muito amor. 
É o amor que vai nos salvar, é o amor que sempre salva. 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O baú de memórias do centro da cidade


O centro de Pedralva, cidadezinha fofa do sul de Minas onde eu nasci e vivo atualmente, é um baú vivo de memórias, cada cantinho que a gente olha tem uma lembrança, seja de infância, de adolescência, de tempos felizes e tristes que passaram, no jardim, no escadão da igreja (famoso!), no Clube Recreativo, no Casão, na Cite, na rua de pedras onde cada paralelepípedo guarda nossa história, nossa juventude e dias que foram embora mas que nunca nos deixarão totalmente. São muitos lugares que revivam o que passou mas nenhum cantinho traz tão boas recordações pra mim como o cômodo que fica embaixo do casarão lindo da Dona Zuza, que já abrigou por muitos anos (anos áureos da cultura pedralvense!) o Bar dos 2 (das antigas) e hoje é a sede do charmoso Le Pettit, Empório, Café, Turismo e Cultura, como já anuncia a placa lindinha na porta. 

Tenho pra mim que esse cômodo da Dona Zuza só pode ser encantado, sempre traz vitalidade e amor pro centro de Pedralva. Trouxe Vivi e Brunebas pra nós, que nos deram de presente esse cantinho tão fofo, aconchegante, charmoso, cheiroso e delicioso de estar, e ainda ganhamos no pacote os dois, pessoas tão queridas e cheias de vivências legais para agregar coisas boas e positivas pra nossa "cidadica", tão pequena de tamanho e tão grande de sentimentos nobres.

São tempos diferentes agora, fico olhando pro Le Pettit e penso que ele é o Bar dos 2 adulto, atingiu a maioridade o nosso "boteco" tão amado! Que história linda! Lembro da Vivi pequenininha no bar dos 2, cresceu ali rodeando os pais que a gente ama tanto, Juninho e Glêda, os tios, primos e nós, clientes que não saíamos de lá. Entre uma fase e outra o cômodo foi consultório dentário e há um ano a Vivian e o Bruno trouxeram de volta pra gente a mágica do lugar. Não é lindo?

O Bar dos 2 foi o grande responsável pela minha formação cultural e musical, foi lá que a maioria das amizades da vida inteira nasceram, foi lá que aconteceram as cantorias sem fim, com o violão rodando de mão em mão pelo fim de semana inteiro... rodas de viola intermináveis. Quantos talentos natos desabrocharam ali! Nos anos 80 e 90 o Bar dos 2, naquele local, foi de muitos donos (Edu, Eugênio, Nando Faria, Dilma, Luiza... quem mais?), mas tudo gente com o mesmo gosto musical e apreço por qualidade sonora, então o cliente quase nem percebia que o bar estava sob nova direção. Nossa, que tempo bom! Me emociona lembrar dessa época!

E emoção do mesmo tamanho eu senti nesse sábado que passou, quando o Le Pettit estreou com som ao vivo, de qualidade INQUESTIONÁVEL, com o Fabrício querido e sua música tocada e cantada pela alma linda que ele tem, interpretando lindamente Toninho Horta, Dori Caimmy e Guinga. Que presente que foi pra gente! Ao redor os amigos da mesma época do Bar dos 2, sentados em cima dos mesmos paralelepípedos, no mesmo cenário que abrigou tanta coisa boa que a gente viveu. Louco pensar que dividimos a mesma experiência  no tempo do bar dos 2 e prosseguimos aqui, juntos, no Le Pettit, tantos anos depois, com o mesmo amor, amizade e vontade de interagir, rir, cantar!  Mesmo sem ninguém falar nada, foi possível sentir a emoção em cada um por estarmos ali, juntos, depois de tanta vida! É como se o tempo não tivesse  passado. Aaaaai que nostalgia gostosa! 

Eu só posso desejar vida longa ao Le Pettit e agradecer à Vivi e ao Bruno pela tamanha sensibilidade em perceberem a carência que Pedralva tem de eventos como esse que aconteceu sábado.  Vocês estão contribuindo para que nosso baú vivo de memórias continue sendo abastecido com histórias lindas, boa música, amizade, amor e tudo de bonito que vale à pena a gente guardar e levar dentro do coração pela vida afora.

E viva o nosso baú de memórias, que está ficando a cada dia mais vivo, porque o que é bom vive pra sempre dentro da gente!
 Viva! 





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Histórias de amor da vida real


Esse fim de semana estive imersa em família. O aniversário de 80 anos de um tio (Tio Chiquinho fofo) reuniu em Limeira, interior de SP, grande parte da Carneirada: a alegre e sempre efervescente família da minha mãe. Os "Carneiros" gostam de abraçar, beijar, rir alto, falar alto (bééééééé!), beber bastante (alguns não - bem poucos - vamos ser coerentes! rsrs...), e em comum a gente tem essa egrégora linda que nos alimenta com amor, sempre despretensioso e incondicional, que nos faz ser fortes e fofos, como os animais que denominaram nossa linhagem. 

Escutei e vi tanta história de amor esse fim de semana que não tinha como hoje não sentar para devanear. Desperdício não falar sobre. A primeira é a história linda da Tia Léa, que há tempos tenho vontade de contar. Na verdade a história dela dava era um lindo romance, com umas 250 páginas, daqueles que fazem a gente chorar de emoção. Infelizmente hoje eu só vou de resumo.  

A tia conheceu seu grande amor na adolescência: o Chiquinho Faria. Um amor infantil mas totalmente recíproco, que teve um fim por pura bobagem, decorrente de uma falha de comunicação e um mal-entendido. Ao se fazer de difícil, coisa que na época as mocinhas faziam muitíssimo, tia Léa perdeu o "bonde". O Chiquinho, chateado com ela, arrumou outra rapidinho. Isso acontece muito... rsrsrs... enfim, o novo namoro do amor da Tia deu certo, pegou velocidade, ganhou seriedade e se transformou em casamento. A moça era muito boa, pessoa de família de gente muito querida, e a Tia Léa, mesmo sofrendo, aceitou de coração o relacionamento, pois sabia que seu amado estava em boas mãos. O amor tem dessas coisas, né? Só que ela nunca mais ocupou seu coração, deixou o amor por ele adormecer, silenciar, ficar ali escondidinho, bem quietinho, imperceptível.... e seguiu adiante.

O Chiquinho foi feliz no seu casamento, teve quatro lindos filhos, mas infelizmente sua esposa adoeceu e faleceu, precocemente. Foi uma tristeza na cidade. Tia Léa também ficou triste em ver o sofrimento de seu ex-namorado, mas o amor (aquele adormecido e silenciado por aaaaaanos) abriu os olhos e disse bem baixinho nos ouvidos dela: "Ai... meu viuvinho!!!". A esperança fez morada em seus dias a partir dali, mas ela, sempre discreta, continuou o amando em silêncio. Passado um ano do falecimento da esposa do Chiquinho, uma irmã dele falou baixinho um dia no ouvido da Tia Léa: "E aí cunhadinha?", o coração deu até uma galopada e ela só pôde sorrir e pensar que algo estava acontecendo para que aquele sinal chegasse até ela! 

Depois disso vieram os cortejos e enfim... a reconciliação! Uhuhuhuuuuuuul!! Que alegria pra esse coração que esperou tanto! E eles não perderam tempo, logo se casaram. A tia recebeu com todo o amor do mundo os filhos do primeiro casamento para criá-los como mãe e ainda teve outros três capetinhas (hahahaha...), que são a alegria e divertimento dela. Os meninos (hoje homens só de tamanho e idade!) atormentam tanto a tia Léa que a gente fica até com dó, pegam-na no colo, jogam na piscina, beijam na boca... é muito engraçado, mas é amor genuíno, liiiiiiiiiindo de ver! Tio Chiquinho infelizmente se separou temporariamente da tia outra vez, faleceu anos atrás, mas deixou pra ela uma família que a ama imensamente. Fala a verdade se essa história não merece um livro cheio de detalhes? Isso é amor! E amor é superação.

Nesse encontro de família eu vi também tanta gente com saudade, que perdeu seus entes queridos, mas que estão prosseguindo a vida, se apoiando uns nos outros. Os filhos do tio Garoto, por exemplo, tão cuidadosos com o pai, que também perdeu seu grande amor. Lindo de ver! Isso é amor! E amor é superação.

Eu vi a minha prima Natália (que não via há mais de 10 anos), tão linda e guerreira, positiva, corajosa, com seu filho Inácio (motivo de suspiros constantes na festa, de tamanha doçura e encantamento que o menino tem), que nasceu prematuro e hoje estão lutando bravamente para superar as sequelas deixadas pelo parto fora de hora. Natália é uma lição de vida pra gente. Não reclama, só agradece e prossegue. Isso é amor! E amor é superação. 

O próprio tio Chiquinho, o aniversariante, com sua linda esposa Gabriela, que sofrem já pelos filhos que estão batendo asas e vão viver em outro país... tão longe! E mesmo sofrendo, incentivam, encorajam, deixam ir. Isso é amor! E amor é superação.

E a Patrícia, filha do Tio Chiquinho, que organizou a festa com tanta garra, demonstrando a alegria de nos receber em cada detalhe! Gente!! Os docinhos tinham carinha de carneiro! hahaha... olha que carinho mais gostoso! Eu de fogo não tinha coragem de comê-los, de tão lindinhos que eram... aí a Ana Luiza, sempre divertida e avacalhada, veio e espatifou com meu doce numa "dedada" só! Fiquei triste pelo meu carneirinho. Isso é amor! E amor é superação... hahahaha (sacanagem!).

Se eu for contar tudo que observei vou ter que escrever um livro sobre esse encontro lindo de amor. Cada um tem a sua história, a sua dor, a sua saudade. Estamos no mesmo barco porque a vida é assim pra todo mundo, imperfeita, mas linda do jeito que tem que ser. Como é bom ter uma família que nos ama, nos respeita e convive bem com a gente, mesmo com tantos defeitinhos (ou defeitões)!

Família é isso, gente!
Família é amor.
E amor é superação.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Sonho X Realidade

Sabe? Pensando aqui, me considero afortunada, eu já realizei muitos sonhos na vida! Muitos! Hoje mesmo, estou vivendo um sonho, muito desejado, por muito tempo, que é viver num lugar tranquilo, rodeado por natureza, sem muito barulho, perto da família e dos amigos, perto das montanhas (Aaaai... isso é o máximo!), conseguindo manter a mim e as minhas filhas financeiramente, tendo independência e autonomia de vida. Esse sonho nasceu do cansaço interminável de uma vida agitada, sem tempo pra nada, tendo que matar quatrocentos leões por dia para sobreviver, engolindo sapos incessantes para atender demandas urgentes de chefes ansiosos, exigentes e egocêntricos. Hoje, quando eu sento para tomar meu café da manhã sem pressa, e tenho a vista que eu tenho, escutando os passarinhos cantar, me deliciando com a Rádio Inconfidência de BH tocando no celular e não tendo hora pra chegar no trabalho eu suspiro fuuuuuuuuuuuuuuundo, com muita delícia, e faço uma oração em agradecimento à essa dádiva que é viver o sonho. 
O sonho fez a vida ficar perfeita? 
Não, não fez. 
Segura aí que logo destrincho o pensamento.

Quando eu era estudante de jornalismo, nos anos 90, eu chegava da faculdade à noite e me sentava na porta de casa para olhar pro céu. Ficava observando a luz dos aviões que passavam em rota acima da minha caixola e pensava comigo: "Eu ainda vou viajar muito de avião, vou ter uma vida agitada, vou viver em ponte aérea e conhecer o Brasil inteiro a trabalho". A calma excessiva do interior, nessa época, me dava nos nervos e eu queria agito, trabalho, movimento. De fato eu tive essa vida que desejei, viajei o Brasil quase que inteiro a trabalho, conheci culturas, pessoas, lugares incríveis e enjoei de tanto andar de avião. Esse sonho fez a vida ficar perfeita?... já já! 

Eu sonhei em ter um grande amor na minha vida e tive.
Eu  sonhei em ser mãe e fui.
Eu sonhei ser jornalista e atuei em praticamente todas as vertentes do jornalismo.
Sonhei em ser fotógrafa, consegui fazer cursos, ter ótimas câmeras fotográficas e amei cada segundo dedicado à esse job/hobby.
Sonhei em conhecer outro país e vivi meio ano no Canadá.
Sonhei em ser escritora, cá estou eu. 
Com tantos sonhos realizados, a vida foi ou é perfeita?

Tchan tchanãnã.... NÃO! 
O que sonhamos por dentro e o que vivemos por fora são coisas muito distintas. Quer ver?
- A vida agitada, com voos tão frequentes e rotina insana de trabalho quase me mataram e no fim eu já não podia nem ver avião mais na minha frente... hahaha... 
- O grande amor... bom! Melhor não comentar.
- Ser mãe foi e é maravilhoso, mas não passa nem perto de ser um mar de rosas.
- O jornalismo factual e o dia-a-dia insano de uma redação só serviu para me trazer grandes amigos, experiência e um pouco de esperteza (né Mara Santos? Hahaha...), no mais... NÃO É PRA MIM!
- Ser fotógrafa foi lindo mas a vida não deixou que o hobby fosse profissão por mais tempo porque as câmeras pesadas não se adequaram às mãozinhas tortinhas.
- Viver no Canadá foi inesquecível mas eu comi o pão que o diabo amassou para aprender inglês, que voltou capenga, e quase morri de saudades do Brasil e da minha gente!
- Ser escritora é maravilhoso, me realiza, me completa, mas é uma profissão super trabalhosa e que carrega uma responsabilidade gigante, sem contar que não é tão fácil assim conseguir clientes, eu até que tenho tido sorte. 
- E, por último: a vida nas montanhas! É ótimo viver aqui, mas tem dias que quero sair correndo, mudar, viver em outro lugar um pouco mais agitado (vai entender... rsrsrs...). Tem dias que calma demais parece que me distrai em vez de me concentrar.

Enfim... tô fazendo essa reflexão pra dizer que o sonho tem problemas. 

Ensinaram a gente a sonhar, mas não ensinaram que o sonho vem, mas vem para ser vivido na realidade e a realidade é do jeito que é: imperfeita. Por causa dessas imperfeições às vezes a gente vive o sonho sem nos darmos conta de que estamos vivendo o que desejamos tanto em algum momento da nossa vida. E o sonho passa despercebido. O sonho acaba.

O sonho tem problemas, mas talvez a realização completa dele seja justamente a capacidade de conseguirmos resolvê-los. A maioria (me incluo nesse rol) não resolve o que tem que resolver, pula de sonho em sonho e, assim, a realização nunca chega.

A vida nos dá tudo que queremos, quando temos VONTADE, quando desejamos com o CORAÇÃO e nos esforçamos para ter. Isso é fato! Mas, distraídos que somos, deixamos o sonho escapar, sorrateiro, no meio de tanta realidade. Aí a vida vem e ensina que tudo bem sonhar muitas coisas e tudo bem também mudar de sonho, mas que não está tudo bem deixar escapá-lo sem antes esgotar todos os recursos para vivermos aquilo que a gente quis tanto... problemas sempre vão existir, sonhos realizados não, eles se esgotam e nos abandonam, se não sabemos aproveitá-los da forma correta. 

O sonho realizado precisa de valorização para continuar existindo... se não, vira só mais um sonho que passou e que foi engolido pela realidade.



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sinais


Outro dia estava no aeroporto em São Paulo, esperando pelo voo que aconteceria dali a uma hora, e resolvi entrar numa pequena livraria para sapear. Os olhos toparam, de supetão, num livro cujo título era: "Propósito: A coragem de ser quem somos", na hora escutei a voz interna: "compre esse livro", mas eu não dei muita bola, pensei: 'deve ser mais um livro da moda!' e continuei o rolê dos olhos, já convencida de que queria comprar um livro pra ler na viagem. Rodei, rodei, rodei, mas os olhos toda hora voltavam para o tal "Propósito". "Cacete, vou folhear, vamos ver qual que é", e o olhar bateu direto na frase: "Os muros que você constrói ao seu redor para se proteger são os mesmos que o mantém isolado no mundo". Caraca! Comprei. Devorei a metade do livro na ida, a outra metade na volta e agora estou lendo de novo, rabiscando, anotando, bem devagar, para absorver melhor o conteúdo. Fiquei pensando depois o quanto são valiosas essas vozes interiores e como deixamos de aproveitá-las, na maioria das vezes, por pensarmos ser uma viagem da cabeça ou coisas do tipo. 

Ontem, conversando com uma amiga que passa por uma crise existencial (desse assunto entendo bem... hahaha), discursei, discursei, discursei e depois falei sobre o livro que estava relendo,  amando cada palavra, e o quanto a obra estava ampliando meu olhar sobre um caminhão de coisas. Quando disse o nome do livro ela ficou chocada: "Ana, só essa semana esbarrei com essa palavra três vezes, fui convidada para uma palestra sobre o tema, ganhei um livro com esse nome e agora você me fala do nome desse outro livro!". Ela ignorou os dois primeiros "chamados", não foi na palestra e não deu muita bola para o livro que ganhou de presente, mas entendeu o terceiro sinal. Nós duas divagamos longamente sobre os sinais que a vida nos manda e que teimamos tanto em ignorar. Eu, depois, fiquei pensando que sincronicidade louca essa e que bacana quando conseguimos percebê-la nos nossos dias!

A vida nos manda sinais. O universo, quando quer nos mandar recados, nos manda pessoas,  palestras, filmes, mensagens encaminhadas, áudios, frases escritas em muros, cartazes pregados em postes, livros! E o que fazemos? Fazemos de "desentendidos", sempre entorpecidos pela rotina diária, pela falta de fé no desconhecido, pela surdez emocional que nos impede de ouvir a nossa sábia voz interior. Quando o sinal é ouvido e entendido é isso o que acontece: um livro lotado de coisas que você precisa ouvir, uma "chapuletada" atrás da outra, mas totalmente para o bem! Escutar o chamado é percorrer o caminho mais calmo de volta pra casa, é encontrar sem querer uma pessoa que você está louca para encontrar, é encontrar a solução para aquele problemão que está te tirando o sono, é chegar no "Le Pettit" e ter a deliciosa torta de nutella com doce de leite que você ama... (Owwnnnnn!). Quando você precisa ouvir alguma coisa importante a vida vai te mandar aquele amigo querido, que vai enfiar o dedo na sua ferida até sangrar, mas vai te curar! Amigos de verdade são os segundos melhores portadores de recados do universo, são nossos "anjos da guarda vivos" e, por nos conhecerem tão bem, são sempre eficazes no quesito "acorda pra vida"! Hahaha...

Em primeiríssimo lugar a voz que mora dentro da gente é a opção que melhor pode nos guiar, mas é a mais difícil de ser ouvida, porque as interferências são monstruosas! Ela pode ser confundida com ego, com ideias pré concebidas, com preconceitos, com obsessores... vish! Tanta coisa que precisa de um post novo só para discorrer sobre as "interferências do eu"! 

A voz interna é a famosa intuição. Ela surge sutilmente, é sóbria, calma, certeira. 
Essa voz é a sincronicidade querendo agir na vida da gente. 
Há de se ter coragem para ouví-la e mais coragem ainda para seguir a recomendação! 
Ouça.
Como disse Guimarães Rosa: "O que a vida quer da gente é coragem".