segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Lições de jardim

 


Eu acredito muito que todas as coisas da nossa vida estão conectadas com o que existe ao nosso entorno: natureza, pessoas, móveis e todas as materialidades, pois entendo que tudo é energia e tudo pode influenciar nossa vida, pro bem ou pro mal, mas pode também trazer aprendizados e lições preciosas... é só desfocar o olhar, às vezes cético, para ver além das aparências. No começo deste ano, fatídico para a maioria das pessoas desse mundão de Deus, minha vida estava uma grande meleca, com muitas coisas dando errado (não vem ao caso citá-las aqui porque já passou e tals...), a saúde não tava nada legal, eu estava muuuuito acima do peso, e não adianta, isso é sim um desconforto grande para a maioria das mulheres e para mim não foi diferente, auto estima rolando ladeira abaixo e fundo do poço logo ali... só sei que a barra tava difícil demais de segurar.

Quando começou a pandemia e veio o isolamento eu decidi que ia deixar o meu entorno o mais lindo que as minhas mãozinhas tortinhas pudessem realizar. Decidi produzir um jardim, encher a minha casa de plantas, meu quintal de lindezas e foi, em um dia de cada vez, que a natureza me trouxe de volta, me mostrando, através da observação de cada etapa, do plantio ao florescimento, da forma como as estações do ano agem no meio ambiente e o que faz bem ou não para o cultivo de plantas, o que eu tinha que mudar e corrigir em mim mesma. Com a observação destas etapas eu pude ver a grandiosidade da vida e comprovar a interligação do nosso mundo interior, da nossa cura, com a natureza que nos rodeia. Isso pode até parecer papo de bicho-grilo e é um pouco, hahaha! Se você é cético e acredita que o papo de que tudo carrega energia (e tals...) é balela, pode parar de ler por aqui. Esse não é um texto muito apropriado pra você... mas eu o convido a ficar mesmo assim, ceder e, quem sabe, se desarmar um pouquinho, pelo menos para parar para pensar. 

Neste tempo todo muitas coisas deram errado, fiz muitas atrapalhadas como jardineira, mas o que deu errado me mostrou que a culpa era minha mesmo e que eu precisava me responsabilizar pelas escolhas erradas, afinal, não sou e nunca fui uma  "Expert" em botânica, o que eu sei vem tudo da intuição, fui aprendendo com os erros e acertos... xi! matei muitas plantas, tadinhas! Dei água demais, água de menos... mas acertei muuuuuito também! Fiz quase 50 mudas de abacate, que ficaram lindas e grandes e daqui uns dias estarão crescendo no sítio do meu pai, embelezando o redor do lago. Esses erros e acertos com as plantas trouxeram clareza sobre a minha própria vida e as escolhas que não me responsabilizei pelos resultados desastrosos, que desencadearam depressão, perdas e insucessos, em muitas áreas. Larguei, por tanto tempo, a minha felicidade nas mãos de outras pessoas, de trabalho, de amigos, de lugares, acreditando que o mundo exterior tinha a obrigação de me dar aquilo que eu queria: amor, felicidade, paz, satisfação... e olha, nada disso tem a obrigação de nada, ninguém e nada nessa vida existe para atender às nossas expectativas. O saldo positivo e negativo de tudo na vida é mérito ou culpa da gente mesmo. Ponto. Realizar, mudar, crescer, se curar, são ESCOLHAS INDIVIDUAIS. Ponto de novo. 

No começo, comprei uma quantidade enorme daqueles saquinhos com sementes de flores, que vende nas lojas de materiais agrícolas, porque eram mais baratos do que comprar já as mudinhas formadas. Nossa, isso foi um exercício de paciência que trouxe frustração e muito pouco prazer, pois o mato crescia junto com as plantinhas na mesma velocidade,  e pra eu saber depois o que era mato e o que era planta? Afe, foi um sufoco, decidi por um tempo deixar tudo crescer junto pra ver o que virava, uma hora as florzinhas haveriam de aparecer... a primeira a aparecer foi uma trepadeira, aaaai que fracasso! Uma trepadeira num canteiro horizontal, que sandice! As margaridinhas amarelas também apareceram, me fazendo morrer de amor, mas duraram pouquíssimo tempo. Que fracasso de jardineira... fala a verdade? Até que, vencida pela teimosia, refiz o canteiro todo, depois de alguns bons meses sem conseguir ver o resultado esperado. Comprei mudinhas e hoje tá uma lindeza que me faz suspirar com gostosura e paixão. Lições importantes: não adianta plantar uma coisa e esperar nascer outra, não adianta plantar uma trepadeira num canteiro horizontal, assim como não adianta tentar exaustivamente se encaixar em situações que não te pertencem (vulgo dar murro em ponto de faca). Os matos vão crescer na vida da gente também, é tanta praga, que se a gente não pára para limpar, a vida vai ficar insustentável... e o jardim bonito que tem dentro da gente, nunca vai aparecer! 

Plantei também um saquinho inteiro de amor perfeito num vaso grande. Adoro essa flor! Insistente que sou, pensei: "quero ver agora se não vai rolar!", demorou muuuuuuito, mas rolou - em partes! O vaso tá liiiiindo, as folhas verdinhas, com carinhas de saudáveis, mas até agora nada daquelas flores lindas, coloridas e charmosas! Estamos aguardando... uma hora vai rolar, e vai ser lindo! É assim mesmo, o amor perfeito deve dar trabalho, deve demorar pra chegar, justamente porque não existe amor nessa vida que seja perfeito e criar expectativa em cima de um vaso desse é a maior roubada da vida, porque a gente tem que plantar e relaxar... o que vier vai ser lindo, do jeito que tiver que ser. Né mesmo? A imperfeição tem sua beleza também, vai que meu amor perfeito é igual pé de amora, de mamão, que nasce macho ou fêmea? De repente não vai vir flor, é amor perfeito macho (Hahahaha!!!)... então já me preparo para aceitar a situação e achar lindo meu vaso verdinho, cheio e feliz de ser quem ele é, do jeito que é!

Só sei que vivo aprendendo com o que me rodeia! Aprendo e cresço. A cada dia mais entendo melhor minhas dores mais íntimas, as origens delas e como curá-las... enxerguei que quem não entende suas próprias dores,  não as aceita e se recusa a olhar para elas, tende a machucar os outros com mais facilidade... e eu não quero machucar ninguém. O entendimento e a aceitação traz a cura pra vida da gente. 

O jardim me floresceu, estou encantada com cada conquista que faço no meu dia a dia, eliminei 12 quilos e quero que aquele peso todo nunca mais volte para meu "corpitcho", estou leve, com a saúde ótima, feliz com a minha vida do jeitinho que ela é, com meu jardim, com as minhas habilidades de fazer e ser! É claro que a vida não está perfeita, mas o jardim deixou as imperfeições todas que fazem parte dela, muito mais interessantes e fáceis de conviver. 

Cuidar de plantas, de gente, de filhos, de animais, da gente mesmo, olhar pro outro, pro entorno, pra tudo que é vivo, tem o poder de nos trazer de volta pra dentro de nós mesmos. Cura exige cuidado. Amor exige cuidado. Beleza exige cuidado. Lições lindas que eu compartilho agora com você, desejando muuuuuito que você também faça seu resgate, que escolha se curar, se amar, amar seu entorno e cada pedacinho de coisa que faz parte da sua vida... tudo é uma questão de escolha. Cuide para que cada decisão sua, até as pequenas do dia a dia, te levem para esse lugar tão gostoso de estar: o jardim florido que tem morada dentro da gente!

Com um baita amor! 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O último boleto


Este mês me preparei para pagar o último boleto da faculdade da Cibele, minha filha mais velha, que acabou de se formar em Cinema, na PUC de Belo Horizonte. Na espera pelo boleto fiz uma viagem pelo tempo, pela nossa história juntas e me lembrei de quantas e quantas vezes em que eu pensei: "Ai meu Deus, será que eu vou conseguir?", pergunta que rodeou meus pensamentos em muitas ocasiões: quando descobri que estava grávida, quando ela nasceu, quando ela chorava a noite inteira com dor de ouvido, quando nos mudamos para Mato Grosso já com a Bia, a segunda filha, a caminho de completar a nossa familinha (que se tornou o clube das mulheres!), quando bateu a síndrome do ninho vazio... tive tanto medo de não dar conta! Chorei tantas vezes sozinha para as meninas não perceberem a minha fragilidade momentânea!

Quando entrou na faculdade, no dia da matrícula, enquanto a Cibele, sem nem solicitar a minha ajuda, foi preencher a papelada, eu fiquei sentada vendo aquela pessoa toda independente me dar o sinal de: "pode deixar que agora é tudo comigo", que cena! Eu chorei, né? Claro! Chorei de alegria e de preocupação. De alegria por ver a minha pequena se tornando adulta e de tristeza por não saber se teria condições de pagar aquelas parcelas tão caras, pelos longos quatro anos pela frente. Mas a Ci é tão descolada e antenada, que arrumou toda a papelada e conseguiu 50 % de bolsa, o que facilitou pra mim enormemente! Ufffa! 

Nestes quatro anos eu vi a Cibele se intelectualizar, formar suas próprias opiniões, amadurecer, se virar, correr atrás de trabalho, de sonhos e de conseguir praticamente tudo o que quis. Menina danada, não me deu um pingo de trabalho e me encheu de orgulho, tantas vezes. É claro que ela deve ter feito lá as farras com os amigos incríveis que ela fez na faculdade e deve também ter feito algumas "cagadas", que nunca chegaram aos meus ouvidos ou nunca tiveram consequências trágicas que precisassem da minha intervenção... hahaha... Graças a Deus! 

E veio a pandemia... essa loucura toda que estamos vivendo. A filhota começou a fazer a quarentena em BH, mas no primeiro sinal de medo e pânico, eu e a Bia saímos daqui e fomos na "capitar", num cansativo bate e volta para buscá-la, e desde então ela ficou aqui comigo. Nestes quatro meses eu acompanhei os últimos momentos da faculdade on line e o trabalho de home office no estágio na Rede Minas, como auxiliar de produção do programa Brasil das Gerais. Foi aí que eu pude conviver pela primeira vez com a minha filha adulta e, sem querer jogar confetes, já jogando, fiquei encantada com a desenvoltura da menina (mulher!), sempre tão esperta, falante, com soluções que saem da caixola com uma facilidade, admirável!  Fiquei realmente impressionada com o que vi e ouvi.

Hoje aconteceu a colação virtual, uma cerimônia simples,  até que rápida, só para os formandos poderem já pegar seus diplomas. Não foi nada do que a gente sonhou, mas se tem uma coisa que a vida me mostrou é que podemos nos adaptar a tudo, né filha? E assim é que o novo tempo se apresenta, um tempo de adaptações e incertezas. 

Querida filha, muitas vezes na vida você também vai se perguntar se vai dar conta, algumas vezes a gente duvida da gente mesmo e duvida da nossa força interna... mas o que eu queria te falar hoje é que a resposta vai se apresentar sempre afirmativa: sim, nós damos conta! Quando tudo parecer perdido é só respirar fundo, que a solução está logo ali, com um bebê lindo que nasce para iluminar a vida, com ajudas que surgem do nada, com um remedinho fantástico que cura a dor de ouvido, com uma nova vida que vem para fortalecer, com trabalhos que brotam nos tempos mais difíceis que pagam as nossas contas. A solução sempre vem quando a gente tem fé. Então o que eu desejo pra esta nova etapa de vida é que você tenha muita coragem e fé. Tudo que vem é pra bem! Quero poder te aplaudir e me orgulhar de você ainda muitas vezes e tenho certeza que o farei. 

Este texto é meu presente de formatura pra você, que é tão perfeita que até se enganou sobre o número de parcelas... me dando um suspiro daqueles mais gostosos! Hahaha... o último boleto não veio, a última mensalidade era em junho e quando eu descobri que julho não precisava pagar eu tive aquela sensação delícia de quando a gente encontra um dinheirinho perdido num casaco no armário. 

Brilhe querida, o mundo é o limite pra você. Você pode tudo, sempre vai poder.
Beijos com amor, da mamãe orgulhosa!

sábado, 9 de maio de 2020

Despedidas roubadas


Eu gosto de velório. Que fúnebre começar um texto assim, né? Mas eu explico. Penso que só quem já perdeu um ente muito querido para saber a importância de um abraço, de um sorriso, uma palavra consoladora, uma presença que seja, no momento da despedida de alguém amado, tempo esse que  carrega tanta dor. Cada abraço e cada manifestação de apoio e afeto é como se a nossa dor fosse sendo diluída aos pouquinhos, não é assim? Entendi isso cedo, com a morte da minha mãe, quando eu tinha 12 anos. Antes eu achava super estranho o meu pai ir a todos os velórios e sepultamentos que aconteciam na cidade. Depois entendi e passei a acompanhá-lo, não em todos, mas na maioria, e ao abraçar alguém em sofrimento sempre penso "me dá um pouquinho da sua dor, pode dar!". 

Desde o começo da pandemia a coisa que mais me chamou a atenção (e dor, só de pensar!) foi o fato das famílias vitimadas pelo corona vírus terem as despedidas roubadas quando perdem seus amados. Meu Deus! Isso não entra na minha cabeça! Imagina, você não poder dar um último beijo, não poder passar horas olhando para aquele rosto já sem vida, mas que traz tantas histórias que vão deixar tantas saudades. Que dor mais sem limite! Sem abraços, sem consolo, sem o tempo certo para digerir a perda. Que coisa triste e nunca imaginada! 

Hoje o Brasil completou 10 mil perdas. "Numerozão", né? Vamos escutando esse aumento assustador de números dia a dia, números computados, somados, acumulados e tristemente ignorados por muitos. Muuuuuuuuuitos. Cada número que compõe essa soma é uma pessoa que tinha uma história, tinha família, tinha assuntos inacabados e vai embora desse mundo deixando dor em muita gente, vai sem se despedir. Imagina o buraco que isso fica na vida de quem fica? Que luto mais tortuoso será!

Fico aqui pensando... nós acompanhamos essa tristeza pelos telejornais, sentadinhos no sofá, no nosso conforto, com nossa família querida e tudo isso fica tããããão distante de nós, parece um filme de terror, de ficção, estarrecedor, mas o noticiário acaba, a gente desliga a TV, volta pro nosso cotidiano, mesmo em quarentena, com saúde, com vida e pronto, os números ficaram para trás... amanhã é outro capítulo do filme, com mais números, mais tristeza e "parece" que a tragédia nunca irá nos atingir, nunca baterá na nossa porta. 

O que eu tenho visto e ouvido dos amigos aqui do interior de Minas é que a vida segue praticamente normal pelas ruas. Todo mundo na mesma vibe: "ah! esse "trem" nunca chega aqui não, sô!", mineiro sempre sossegado e confiante. Faço votos para que não chegue mesmo, por isso estou fazendo o máximo pra ficar bem trancadinha em casa, porque se vier... vai ser muito triste não poder abraçar um amigo querido que passe por uma tragédia dessa! Não existe ir num velório sem abraçar e não existe velório sem um corpo para velar. O que fica é só morte, um enterro solitário e um vazio que vai ser muito mais difícil de ser preenchido.

Eu sempre gosto de terminar meus textos com algo positivo,  alguma lição boa que podemos tirar de alguma dor... mas hoje não estou encontrando saída para isso. Se não conseguimos nos sensibilizar pela dor do outro, pela dor dessas 10 mil famílias, estamos doentes por dentro. A doença da insensibilidade é devastadora e ela pode sim, fazer com que sejamos os próximos da fila das despedidas roubadas.

Triste.

sábado, 28 de março de 2020

Será que eu vou morrer?


A pergunta que não quer calar na nossa mente inquieta dos últimos dias: "Será que eu vou morrer?",  e a resposta ligeira, "na ponta da língua" do pensamento é: "Não!!!!! Imagina!". Somos assim, não é? Nunca achamos que seremos acometidos pela doença, pelas tragédias e pelas coisas ruins que acontecem com "os outros", com as pessoas que nem conhecemos, como os italianos, os americanos, chineses e espanhóis que estão semanas na nossa frente, nessa triste guerra contra a pandemia. Temos a ilusão da imunidade, "Ah, comigo e com a minha família não vai acontecer", e seguimos, amedrontados e assustados com esse imprevisto, mas certos de que sairemos ilesos. 

Hoje fiquei catando matinhos no quintal, ao redor da minha varanda, a manhã inteira e me veio esse pensamento enquanto eu me perdia no meio da natureza e do solzinho gostoso na minha pele. Pensei na impermanência da vida, como tudo muda de uma hora pra outra, e o quanto a vida é frágil, um sopro... e o quanto teimamos em não olhar para isso com cuidado. Vivemos como se o tempo  fosse ilimitado, como se esse "grande senhor dos dias" estivesse à nossa completa mercê, então deixamos milhares de assuntos para resolver depois, depois que sobrar dinheiro, depois que eu tomar coragem, depois que eu emagrecer, depois que terminar o verão, depois da quaresma, depois de me aposentar, depois, depois, depois... a ilusão do depois que nos dá tantas rasteiras pela vida afora.

No começo desse mês perdi um gatinho que eu amava muito, o Xexéu, um gato fofo, carinhoso, dengoso e muito companheirinho meu, de trabalho, de sofá, de cochilos, de conversas... ele era um gatinho que respondia quando eu falava com ele, era um gozo e uma fofura master! O Xexéu ficou doentinho e se foi em cinco dias, alastrando meu coração. Tudo muito fugaz e inesperado. Lembrei hoje na capina da manhã que às vezes eu olhava para os meus gatos e pensava: "um dia eles vão morrer... como será que vai ser? Qual deles vai primeiro?", mas a mente mentirosa logo respondia: "Xi, vai demorar! Nem pensa nisso", e imediatamente eu deixava esse pensamento "bobo" pra lá. Então, não demorou... e a morte veio de uma maneira nunca antes imaginada.

A vida esse ano parece me chamar a atenção para sua impermanência. Tanta coisa já aconteceu de uma hora para outra! Penso que ela quer que eu pense a fundo sobre mudanças, perdas, recomeços e realidade. Sim, eu posso morrer, meus parentes e amigos podem morrer, por que não? Por que sou diferente dos outros que estão passando por isso e não vai acontecer comigo? Aliás, "NÃO VAI ACONTECER COMIGO", é a frase mais pensada e dita, não é mesmo?  É filhotaaaa, você não tem nada de diferente de ninguém, então se aprume. E vamos pensar sim na morte, mas vamos pensar muito mais na vida que queremos ter, nas coisas que precisamos resolver, nos nossos sonhos, que não podem morrer junto com a ameaça da vida se acabar do dia para a noite. 

Eu, por sorte, não tenho medo de morrer, mas tenho medo de perder pessoas. Perda é um assunto complicado pra mim, talvez por ter perdido minha mãe tão nova, esse assunto é sempre algo doloroso e difícil de assimilar, ingerir. Mas é um exercício importante da gente fazer, é um assunto que tem SIM que ser encarado, porque desde que eu me entendo por gente, nunca ouvi dizer que alguém ficou para semente. Talvez não sejamos vítimas do corona vírus, mas de alguma coisa, algum dia, nós vamos morrer, nossos pais, amigos, filhos, amores, todos vão morrer. temos que exercitar essas perdas desde já... como? Amando do jeito certo, sendo gentis uns com os outros, sendo solidários, atenciosos, entendendo melhor as necessidades afetivas das pessoas ao nosso redor. 

Poque quando a perda vier, quando a morte chegar, garanto que vai ser muito menos doloroso quando sabemos que fizemos tudo de bom que poderíamos ter feito pela pessoa que se foi. E se eu morrer, saibam todos que eu vou livre, leve e solta, porque eu sinto lindamente no coração que é só uma mudança de dimensão, é só uma continuidade. Deus é tão pai, tão tudo de bom, que dá pra gente oportunidades inúmeras de acertar, quantas vidas precisar, mesmo que a gente demore pra entender que não somos diferentes de ninguém. 

Quando tivermos esse entendimento, aí sim estaremos libertos para sempre. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Luta individual


Hoje estava refletindo aqui na minha quarentena sobre essa "doideira" que estamos passando com a pandemia do Novo Corona Vírus. Quem imaginou viver um "trem" desse, né? Eu NUNCA... e olha que eu tenho a imaginação beeem fértil, viu? rsrs... Como eu sempre acho que tudo tem um propósito nessa vida, minha nova "diversão" é refletir sobre o que esse vírus está querendo mostrar pra gente. É tanta coisa, tanta reflexão, que preciso ir por partes nesse meu devaneio para não me perder e talvez só um post não seja o suficiente, talvez muitas reflexões exijam amadurecimento, que só virão com o desdobramento dessa pandemia nos próximos meses.

Pensei hoje que cada pessoa está justamente onde precisa estar e com quem precisa estar nesse momento. Eu estou sozinha. Ops, sozinha não, eu e os meus gatinhos, que são excelentes companheirinhos! Muitos estão com a família ou com parte dela, outros com amigos, com namorados, viajando, mas todos isoladinhos em algum ponto desse planeta. Minhas meninas estão cada uma num canto, nos primeiros dias de quarentena lamentei muito por não estarmos as três juntas enfrentando mais uma barra na vida, já enfrentamos tantas, né? E foi tão bom ter elas por perto nos perrengues, mesmo que elas fossem crianças. Hoje tudo mudou, elas são adultas, cada uma cuidando de si e de correr atrás da vida que escolheram e sabe a real? Hoje eu não controlo mais nada na vida delas, nem posso, nem devo, mas que dá saudade do tempo em que eu decidia tudo, isso dá!  

Quando tem que ser a vida junta ou separa, isso é fato. E quando tem que ser  a "coisa" tem força. Se não estão aqui é porque elas também precisam estar onde estão, para o próprio crescimento de cada uma. Eu estou aqui porque eu preciso olhar pra mim, cuidar de quem só cuidou até hoje. Reconhecer isso não é fácil, reconhecer isso é assumir o meu lado controlador, mandão, que quer ter sempre as situações da vida e as pessoas sob total controle. Muito auto-crítica, muito rígida, que se cobra por tudo, até pela escolha e dor do outro, que nem é de minha responsabilidade e competência. Reconhecer isso é olhar pra trás e ver o quanto já passei por cima de mim mesma para atender, acolher, cuidar, ajudar e fazer tudo pelo outro, mesmo que na maioria das vezes eu tenha recebido muito pouco ou nada de volta. Nessa quarentena eu estou em primeiro lugar, estou frente a frente comigo, para reconhecer minhas delícias e amarguras, meus defeitos e qualidades, meus desejos e necessidades. A quarentena quer de mim autoamor, autoacolhimento, autocompreensão. 

É claro que não vai ser um mar de rosas, eu sei. Nem para mim que estou sozinha e nem para quem está perto da família, ou de seja lá com quem for. Assisti um vídeo ontem de uma brasileira que mora na Itália dividindo com os brasileiros o que ela chama de "fases da quarentena", que muda a cada semana. Ela diz que na primeira semana, enquanto é novidade, até que a gente leva numa boa, mas quando vier o tédio, a impaciência, a tristeza pelas mortes aumentando, a irritabilidade com quem está com você... não vai ser fácil pra ninguém. Depoimento de quem está ha dois meses em isolamento.  Estamos há uma semana, nem isso! O que vem pela frente? Intolerância, impaciência, descrença ou fé, confiança, entrega, entendimento? Ou tudo junto, misturado? Talvez hajam brigas, desentendimentos, dentro de casa. Talvez a sua irritação com quem você divide o teto nesse momento fale mais sobre você do que sobre ele ou eles. Talvez fale do que você precisa mudar, fale da sua sombra, fale da escolha que você faz todos os dias ao se relacionar com o mundo. Você está escolhendo corretamente?

São muitos questionamentos, mas certamente os dias que virão serão dias de praticar a tolerância, de acertar relacionamentos doentes, de falar a verdade, de assumir erros, de perdoar... então eu só posso pensar que esse vírus traz a doença, a dor e o medo mas traz também a cura para os nossos sentimentos. 

E sabe? Mesmo que você esteja acompanhado nesse momento pelas pessoas que você mais ama, a luta é individual, em todos os sentidos! Na prevenção do virus, na tolerância e na calma necessárias para passar por esses dias sem enlouquecer. Cada ser está num nível diferente de evolução, de compreensão da vida, de autoconhecimento, por isso a tolerância é importantíssima nessa hora. Talvez os "insights" que você tenha nesses dias não sejam os mesmos "insights" que seu marido e seu filho terão. Talvez você fale e todos vão achar que você está viajando, como podem achar que eu estou viajando com essa postagem, certo? hahaha... 

Mas se a viagem for pro bem, que mal tem?
Desejo a todos dias de aprendizado e muito amor. 
É o amor que vai nos salvar, é o amor que sempre salva. 

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O baú de memórias do centro da cidade


O centro de Pedralva, cidadezinha fofa do sul de Minas onde eu nasci e vivo atualmente, é um baú vivo de memórias, cada cantinho que a gente olha tem uma lembrança, seja de infância, de adolescência, de tempos felizes e tristes que passaram, no jardim, no escadão da igreja (famoso!), no Clube Recreativo, no Casão, na Cite, na rua de pedras onde cada paralelepípedo guarda nossa história, nossa juventude e dias que foram embora mas que nunca nos deixarão totalmente. São muitos lugares que revivam o que passou mas nenhum cantinho traz tão boas recordações pra mim como o cômodo que fica embaixo do casarão lindo da Dona Zuza, que já abrigou por muitos anos (anos áureos da cultura pedralvense!) o Bar dos 2 (das antigas) e hoje é a sede do charmoso Le Pettit, Empório, Café, Turismo e Cultura, como já anuncia a placa lindinha na porta. 

Tenho pra mim que esse cômodo da Dona Zuza só pode ser encantado, sempre traz vitalidade e amor pro centro de Pedralva. Trouxe Vivi e Brunebas pra nós, que nos deram de presente esse cantinho tão fofo, aconchegante, charmoso, cheiroso e delicioso de estar, e ainda ganhamos no pacote os dois, pessoas tão queridas e cheias de vivências legais para agregar coisas boas e positivas pra nossa "cidadica", tão pequena de tamanho e tão grande de sentimentos nobres.

São tempos diferentes agora, fico olhando pro Le Pettit e penso que ele é o Bar dos 2 adulto, atingiu a maioridade o nosso "boteco" tão amado! Que história linda! Lembro da Vivi pequenininha no bar dos 2, cresceu ali rodeando os pais que a gente ama tanto, Juninho e Glêda, os tios, primos e nós, clientes que não saíamos de lá. Entre uma fase e outra o cômodo foi consultório dentário e há um ano a Vivian e o Bruno trouxeram de volta pra gente a mágica do lugar. Não é lindo?

O Bar dos 2 foi o grande responsável pela minha formação cultural e musical, foi lá que a maioria das amizades da vida inteira nasceram, foi lá que aconteceram as cantorias sem fim, com o violão rodando de mão em mão pelo fim de semana inteiro... rodas de viola intermináveis. Quantos talentos natos desabrocharam ali! Nos anos 80 e 90 o Bar dos 2, naquele local, foi de muitos donos (Edu, Eugênio, Nando Faria, Dilma, Luiza... quem mais?), mas tudo gente com o mesmo gosto musical e apreço por qualidade sonora, então o cliente quase nem percebia que o bar estava sob nova direção. Nossa, que tempo bom! Me emociona lembrar dessa época!

E emoção do mesmo tamanho eu senti nesse sábado que passou, quando o Le Pettit estreou com som ao vivo, de qualidade INQUESTIONÁVEL, com o Fabrício querido e sua música tocada e cantada pela alma linda que ele tem, interpretando lindamente Toninho Horta, Dori Caimmy e Guinga. Que presente que foi pra gente! Ao redor os amigos da mesma época do Bar dos 2, sentados em cima dos mesmos paralelepípedos, no mesmo cenário que abrigou tanta coisa boa que a gente viveu. Louco pensar que dividimos a mesma experiência  no tempo do bar dos 2 e prosseguimos aqui, juntos, no Le Pettit, tantos anos depois, com o mesmo amor, amizade e vontade de interagir, rir, cantar!  Mesmo sem ninguém falar nada, foi possível sentir a emoção em cada um por estarmos ali, juntos, depois de tanta vida! É como se o tempo não tivesse  passado. Aaaaai que nostalgia gostosa! 

Eu só posso desejar vida longa ao Le Pettit e agradecer à Vivi e ao Bruno pela tamanha sensibilidade em perceberem a carência que Pedralva tem de eventos como esse que aconteceu sábado.  Vocês estão contribuindo para que nosso baú vivo de memórias continue sendo abastecido com histórias lindas, boa música, amizade, amor e tudo de bonito que vale à pena a gente guardar e levar dentro do coração pela vida afora.

E viva o nosso baú de memórias, que está ficando a cada dia mais vivo, porque o que é bom vive pra sempre dentro da gente!
 Viva! 





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Histórias de amor da vida real


Esse fim de semana estive imersa em família. O aniversário de 80 anos de um tio (Tio Chiquinho fofo) reuniu em Limeira, interior de SP, grande parte da Carneirada: a alegre e sempre efervescente família da minha mãe. Os "Carneiros" gostam de abraçar, beijar, rir alto, falar alto (bééééééé!), beber bastante (alguns não - bem poucos - vamos ser coerentes! rsrs...), e em comum a gente tem essa egrégora linda que nos alimenta com amor, sempre despretensioso e incondicional, que nos faz ser fortes e fofos, como os animais que denominaram nossa linhagem. 

Escutei e vi tanta história de amor esse fim de semana que não tinha como hoje não sentar para devanear. Desperdício não falar sobre. A primeira é a história linda da Tia Léa, que há tempos tenho vontade de contar. Na verdade a história dela dava era um lindo romance, com umas 250 páginas, daqueles que fazem a gente chorar de emoção. Infelizmente hoje eu só vou de resumo.  

A tia conheceu seu grande amor na adolescência: o Chiquinho Faria. Um amor infantil mas totalmente recíproco, que teve um fim por pura bobagem, decorrente de uma falha de comunicação e um mal-entendido. Ao se fazer de difícil, coisa que na época as mocinhas faziam muitíssimo, tia Léa perdeu o "bonde". O Chiquinho, chateado com ela, arrumou outra rapidinho. Isso acontece muito... rsrsrs... enfim, o novo namoro do amor da Tia deu certo, pegou velocidade, ganhou seriedade e se transformou em casamento. A moça era muito boa, pessoa de família de gente muito querida, e a Tia Léa, mesmo sofrendo, aceitou de coração o relacionamento, pois sabia que seu amado estava em boas mãos. O amor tem dessas coisas, né? Só que ela nunca mais ocupou seu coração, deixou o amor por ele adormecer, silenciar, ficar ali escondidinho, bem quietinho, imperceptível.... e seguiu adiante.

O Chiquinho foi feliz no seu casamento, teve quatro lindos filhos, mas infelizmente sua esposa adoeceu e faleceu, precocemente. Foi uma tristeza na cidade. Tia Léa também ficou triste em ver o sofrimento de seu ex-namorado, mas o amor (aquele adormecido e silenciado por aaaaaanos) abriu os olhos e disse bem baixinho nos ouvidos dela: "Ai... meu viuvinho!!!". A esperança fez morada em seus dias a partir dali, mas ela, sempre discreta, continuou o amando em silêncio. Passado um ano do falecimento da esposa do Chiquinho, uma irmã dele falou baixinho um dia no ouvido da Tia Léa: "E aí cunhadinha?", o coração deu até uma galopada e ela só pôde sorrir e pensar que algo estava acontecendo para que aquele sinal chegasse até ela! 

Depois disso vieram os cortejos e enfim... a reconciliação! Uhuhuhuuuuuuul!! Que alegria pra esse coração que esperou tanto! E eles não perderam tempo, logo se casaram. A tia recebeu com todo o amor do mundo os filhos do primeiro casamento para criá-los como mãe e ainda teve outros três capetinhas (hahahaha...), que são a alegria e divertimento dela. Os meninos (hoje homens só de tamanho e idade!) atormentam tanto a tia Léa que a gente fica até com dó, pegam-na no colo, jogam na piscina, beijam na boca... é muito engraçado, mas é amor genuíno, liiiiiiiiiindo de ver! Tio Chiquinho infelizmente se separou temporariamente da tia outra vez, faleceu anos atrás, mas deixou pra ela uma família que a ama imensamente. Fala a verdade se essa história não merece um livro cheio de detalhes? Isso é amor! E amor é superação.

Nesse encontro de família eu vi também tanta gente com saudade, que perdeu seus entes queridos, mas que estão prosseguindo a vida, se apoiando uns nos outros. Os filhos do tio Garoto, por exemplo, tão cuidadosos com o pai, que também perdeu seu grande amor. Lindo de ver! Isso é amor! E amor é superação.

Eu vi a minha prima Natália (que não via há mais de 10 anos), tão linda e guerreira, positiva, corajosa, com seu filho Inácio (motivo de suspiros constantes na festa, de tamanha doçura e encantamento que o menino tem), que nasceu prematuro e hoje estão lutando bravamente para superar as sequelas deixadas pelo parto fora de hora. Natália é uma lição de vida pra gente. Não reclama, só agradece e prossegue. Isso é amor! E amor é superação. 

O próprio tio Chiquinho, o aniversariante, com sua linda esposa Gabriela, que sofrem já pelos filhos que estão batendo asas e vão viver em outro país... tão longe! E mesmo sofrendo, incentivam, encorajam, deixam ir. Isso é amor! E amor é superação.

E a Patrícia, filha do Tio Chiquinho, que organizou a festa com tanta garra, demonstrando a alegria de nos receber em cada detalhe! Gente!! Os docinhos tinham carinha de carneiro! hahaha... olha que carinho mais gostoso! Eu de fogo não tinha coragem de comê-los, de tão lindinhos que eram... aí a Ana Luiza, sempre divertida e avacalhada, veio e espatifou com meu doce numa "dedada" só! Fiquei triste pelo meu carneirinho. Isso é amor! E amor é superação... hahahaha (sacanagem!).

Se eu for contar tudo que observei vou ter que escrever um livro sobre esse encontro lindo de amor. Cada um tem a sua história, a sua dor, a sua saudade. Estamos no mesmo barco porque a vida é assim pra todo mundo, imperfeita, mas linda do jeito que tem que ser. Como é bom ter uma família que nos ama, nos respeita e convive bem com a gente, mesmo com tantos defeitinhos (ou defeitões)!

Família é isso, gente!
Família é amor.
E amor é superação.